quarta-feira, 14 de maio de 2008

PERSEVERANÇA


O canto esganiçado do pássaro delirante
O ninho contorcido, pelo vento destruído
A cria desprovida, do efêmero abrigo
Acaba sucumbida pelas águas dessa vida

No galho da tragédia, novo ninho a construir
Com canto tão sereno, contrariando até Sileno
Nova vida faz surgir, sem se preocupar
Pois as águas dessa vida, alimento lhe trará

domingo, 27 de abril de 2008

QUISERA EU


Quisera eu, tocar o intangível.
Quisera eu, abraçar o inalcançável.
Quisera eu, ser consumido pela antropofagia.
Quisera eu, atravessar a película do retrato.
Mas o que me resta, a não ser essa sede?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

CARANGUEJO


Percorro sem solução aparente,
Uma via que não vislumbro o fim.
Fim se tem não sei, ou mesmo antes o meu.
Na trilha pegadas, pelo vento, logo apagadas.
Que não me dizem nada nem me mostram a direção.
Paro e penso se estou no sentido certo, sem a conclusão chegar.
Passantes me apontam para todos os lados com a sapiência de um Rabi.
Atrás de mim qual miragem, o caminho desaparece.
Agradeço a todos os dedos apontados, mas prefiro seguir minhas pegadas,
Que ainda se formarão.
Não retrocedo o passo, pois quem anda para trás é caranguejo.


Marcelino Amoedo

domingo, 13 de abril de 2008

CANSAÇO


A noite mal dormida
A vida mal vivida
O pensamento na comida
Que não foi digerida
Cansaço...

A trilha percorrida
Na poesia contorcida
Agora esquecida
Na alma deprimida
Cansaço...

A areia escorrida
Pela ampulheta não retida
Farelos dessa vida
Deixados na partida
Cansaço...

A parede embranquecida
A pintura envelhecida
A lembrança distraída
Na memória distorcida
Cansaço...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ATRAVÉS DA JANELA


Vou abrir a janela
Para entrar a poesia
Deita-la na folha
Expressa-la em versos

Respirar seu aroma
A inundar minha alma
Acelerando meu pulso
Espantando meu sono

As paredes do quarto
Não podem conte-la
A transformar o ambiente
Multiplicar os sentidos

Temendo perde-la
Pulo a janela
Procurando seu rastro
Em cada estrela

Seguindo a deixa
Do amigo poeta
Encontro na noite
A amada poesia

Marcelino Amoedo

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

CENTRO DO RIO




Rio
Teu centro moderno
É vivo é belo
Centenário teu prédio
Da Ouvidor a Rosário

Teu Paço e compasso
De passo apressado
Não percebe o passante
A história em tuas ruas

Casa de todos
De França e Brasil
Tuas vielas estreitas
Corredor de cultura

A igreja de costas
A unir avenidas
Voltada pro mar
Celebra tua vida

Tuas noites boêmias
Tuas rodas de bares
A cerveja na mesa
Rodeada de amigos

Chora quem parte
Ao som de teu choro
Tem música tem arte
Por toda parte

Marcelino Amoedo

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

TRANSFORMAÇÕES


Como sobreviver a aurora do pensamento?
Não vejo mais as cores,
que um dia pintaram o mundo.
A luz perdeu o brilho o sentido esvaziou.
Dor parturiente trespassa o meu ser.

Corro aturdido, me agarrando ao que passou.
O conforto do conhecido,
ainda mostra sua sedução.
Mas quem se lança no abismo
não pode o tempo perder.

As correntes que me prendiam,
agora corroídas
pelo tempo da ilusão,
não suportam mais o peso,
rompem-se os grilhões.

Livre do mundo vero,
caminho pelo incerto,
criando a esquina próxima,
que ainda vou dobrar.

Ao som do rugido,
se finda o camelo.
O leão papel cumprido,
à criança da lugar.
Os dados em suas mãos,
e o destino a abraçar.


Marcelino Amoedo

sábado, 5 de janeiro de 2008

TROCADOS EM CARVÃO


Teu corpo embrutecido
Pelo pó do teu opressor
Teu sonho jaz perdido
Enterrado perdeu a cor

Do amor já não te lembras
A esperança se apagou
O carvão arrancado a sangue
Do amigo que ficou

Para o mundo estás distante
Afastado de teus olhos
No orgulho estás ferido
E os mortos esquecidos

Ao carvão o suor mistura
Em borrão por sobre a pele
Vergada tua estatura
Como caniço ao vento leste

Da Terra as entranhas
O lar que te sobrou
Na superfície as cidades
Que da memória te apagou


Marcelino Amoedo