segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

PROVISÓRIO PERMANENTE

O provisório permanente das decisões pendentes
Intimidam os sonhos por realizar

Retardam o passo no compasso da vida
Permanente se torna a ilusão de controle
De uma vida provisória

Fim do incerto
Decretamos sua morte
Mesmo que seja
Apenas provisória

quarta-feira, 14 de maio de 2008

PERSEVERANÇA


O canto esganiçado do pássaro delirante
O ninho contorcido, pelo vento destruído
A cria desprovida, do efêmero abrigo
Acaba sucumbida pelas águas dessa vida

No galho da tragédia, novo ninho a construir
Com canto tão sereno, contrariando até Sileno
Nova vida faz surgir, sem se preocupar
Pois as águas dessa vida, alimento lhe trará

domingo, 27 de abril de 2008

QUISERA EU


Quisera eu, tocar o intangível.
Quisera eu, abraçar o inalcançável.
Quisera eu, ser consumido pela antropofagia.
Quisera eu, atravessar a película do retrato.
Mas o que me resta, a não ser essa sede?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

CARANGUEJO


Percorro sem solução aparente,
Uma via que não vislumbro o fim.
Fim se tem não sei, ou mesmo antes o meu.
Na trilha pegadas, pelo vento, logo apagadas.
Que não me dizem nada nem me mostram a direção.
Paro e penso se estou no sentido certo, sem a conclusão chegar.
Passantes me apontam para todos os lados com a sapiência de um Rabi.
Atrás de mim qual miragem, o caminho desaparece.
Agradeço a todos os dedos apontados, mas prefiro seguir minhas pegadas,
Que ainda se formarão.
Não retrocedo o passo, pois quem anda para trás é caranguejo.


Marcelino Amoedo

domingo, 13 de abril de 2008

CANSAÇO


A noite mal dormida
A vida mal vivida
O pensamento na comida
Que não foi digerida
Cansaço...

A trilha percorrida
Na poesia contorcida
Agora esquecida
Na alma deprimida
Cansaço...

A areia escorrida
Pela ampulheta não retida
Farelos dessa vida
Deixados na partida
Cansaço...

A parede embranquecida
A pintura envelhecida
A lembrança distraída
Na memória distorcida
Cansaço...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

ATRAVÉS DA JANELA


Vou abrir a janela
Para entrar a poesia
Deita-la na folha
Expressa-la em versos

Respirar seu aroma
A inundar minha alma
Acelerando meu pulso
Espantando meu sono

As paredes do quarto
Não podem conte-la
A transformar o ambiente
Multiplicar os sentidos

Temendo perde-la
Pulo a janela
Procurando seu rastro
Em cada estrela

Seguindo a deixa
Do amigo poeta
Encontro na noite
A amada poesia

Marcelino Amoedo

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

CENTRO DO RIO




Rio
Teu centro moderno
É vivo é belo
Centenário teu prédio
Da Ouvidor a Rosário

Teu Paço e compasso
De passo apressado
Não percebe o passante
A história em tuas ruas

Casa de todos
De França e Brasil
Tuas vielas estreitas
Corredor de cultura

A igreja de costas
A unir avenidas
Voltada pro mar
Celebra tua vida

Tuas noites boêmias
Tuas rodas de bares
A cerveja na mesa
Rodeada de amigos

Chora quem parte
Ao som de teu choro
Tem música tem arte
Por toda parte

Marcelino Amoedo

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

TRANSFORMAÇÕES


Como sobreviver a aurora do pensamento?
Não vejo mais as cores,
que um dia pintaram o mundo.
A luz perdeu o brilho o sentido esvaziou.
Dor parturiente trespassa o meu ser.

Corro aturdido, me agarrando ao que passou.
O conforto do conhecido,
ainda mostra sua sedução.
Mas quem se lança no abismo
não pode o tempo perder.

As correntes que me prendiam,
agora corroídas
pelo tempo da ilusão,
não suportam mais o peso,
rompem-se os grilhões.

Livre do mundo vero,
caminho pelo incerto,
criando a esquina próxima,
que ainda vou dobrar.

Ao som do rugido,
se finda o camelo.
O leão papel cumprido,
à criança da lugar.
Os dados em suas mãos,
e o destino a abraçar.


Marcelino Amoedo

sábado, 5 de janeiro de 2008

TROCADOS EM CARVÃO


Teu corpo embrutecido
Pelo pó do teu opressor
Teu sonho jaz perdido
Enterrado perdeu a cor

Do amor já não te lembras
A esperança se apagou
O carvão arrancado a sangue
Do amigo que ficou

Para o mundo estás distante
Afastado de teus olhos
No orgulho estás ferido
E os mortos esquecidos

Ao carvão o suor mistura
Em borrão por sobre a pele
Vergada tua estatura
Como caniço ao vento leste

Da Terra as entranhas
O lar que te sobrou
Na superfície as cidades
Que da memória te apagou


Marcelino Amoedo

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

CHICO


Chico, és bonito o teu canto
Alegro-me por ser teu amigo
Tens por nome Francisco
Que não pensem tratar-se outro Chico

Da poesia fizeste oficio
Tuas palavras desenrolam qual manto
Com pensamentos constrói edifícios
Da filosofia extraíste o espanto

Deste vinho bebo contigo
Construindo pontes no abismo
Abraçando o desconhecido
Que a alma torna conhecido

Continue expondo teu canto
Largo alto e profundo
Daqui continuo cantando
Tendo a ti por amigo


Marcelino Amoedo

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

FLORESTA DA TIJUCA


Foste mata nativa
Vida acolheu em teus braços
Em tua exuberância altiva
Córregos teciam seus traços

Homens tiraram tua vida
Árvores cederam a machados
Ao café tu foste rendida
Da mata arbustos parcos

A beleza a ti devolvida
Por escravos ipês plantados
Hoje refúgio do cosmopolita
A busca do canto dos pássaros

Tens por sobrenome Tijuca
Onde postado teus morros
Do Papagaio avisto a costa
Do mar velas e barcos

Marcelino Amoedo

sábado, 22 de dezembro de 2007

AO FILÓSOFO POSTUMO


Teu olhar é distante...
A força que tinhas em teu corpo já não tem
Mas da doença tiraste força
Teu pensamento, contínuo movimento
Afirmaste a vida pela tragédia
Superaste o niilismo do qual te acusam
Tua seta lançou distante
Teu profeta compartilhou
Não foste compreendido
E compreender-te, ainda tentam
Nasceste póstumo e prolongaste a fala
Noventa segundos de uma imagem
Foi o que deixaste
E o eterno retorno de tuas palavras...


Marcelino Amoedo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

SILÊNCIO


Silêncio, companheiro do pensar
Em sua quietude, um turbilhão de vozes põe-se a calar
As adversidades do dia, ficam para trás
A mente agora, se põe em alerta
Para ouvir o que diz o poeta
O eco de sua voz, agora ressoa
Como um sino barroco a nos chamar
As palavras têm vida, saltam da mente e da boca
O pensamento frenético, agora se torna
Como voz reprimida se põe a gritar
As mãos não controlam, o movimento da pena
A folha se enche por magia e encanto
As palavras nos falam de mundos distantes
Lugares conhecidos, e a conhecer
Pessoas amadas e outras nem tanto
As horas se passam, com o silêncio a meu lado
Na solidão da noite, alegria me traz


Marcelino Amoedo

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

HORIZONTE


Horizonte...
Dizem de ti, linha imaginária.
Então, porque me fascinas?
És a curva da Terra a encontrar o céu.
De mim, nunca te aproximas.
Para navegantes de outrora, um rumo a seguir.
Aventuras a alcançar, mas a ti nunca chegar.
Então, porque me fascinas?
A ti desejar, muitos a vida perdeu.
Penso em navegações do passado.
Homens ao mar, a ti buscar.
Do alto da pedra, meus olhos te miram.
Porque me fascinas?
Não és, linha imaginária.
Mas sonho, a nos povoar...


Marcelino Amoedo

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

SOBRE VIDA E ESTRELAS


Voltando os olhos ao céu, o passado encontra o presente
Estrelas a muito extintas se recusam a partir
Desconhecem a barreira da própria existência
Enviam-nos seu brilho mesmo já sem existir
Talvez brilhem pra nos encantar
Talvez só por querer brilhar
A vontade que as move, é muito potente
Desejo que esteja, em minha vida presente
Imortalidade não sonho, nem significado proponho
Mas a vida que tenho, vive-la e amar


Marcelino Amoedo

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

INSULARES


Somos feitos de ilhas, não de átomos
Não somos um, mas multifacetados
Habitamos e somos habitados
Trocamos de ilha, para mudar o horizonte
Não somos, para nos tornarmos
Como pensar e nunca chorar
Por horizontes perdidos, no horizonte engessado
Trocamos de ilha, para mudar o pensar
Definimos quem somos, por poder navegar


Marcelino Amoedo

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

O TREM


O trem que nos leva, passa depressa
A janela uma tela, memórias que leva
O tempo que passa, vontade que aperta
A alma se eleva, para longe me leva
O trem que nos leva agora se aquieta
A janela uma tela agora revela
A arte mais bela, a vida retorna


Marcelino Amoedo